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Como avaliar a métrica de poesia de modo fácil

3 aspectos básicos das Sílabas Poéticas na Literatura de Cordel e no Repente

Sílabas Poéticas | Verso Encantado

As sílabas poéticas, aqui também chamadas de sílabas rítmicas, nem sempre coincidem com as sílabas ortográficas. Para deixar isso bem demonstrado, você verá:

– Elisões;
– Rima e palavra final do verso;
– Palavras proparoxítonas e suas diferenças de métrica para Cordel e para Repente adotadas por alguns poetas.

A métrica é certamente a parte mais técnica, matemática, da poesia. Me esforçarei para explicar da melhor forma possível alguns detalhes negligenciados pela maioria dos textos relativos à metrificação de versos em Literatura de Cordel e Repente.

Veja o primeiro exemplo, observando o número de sílabas dos versos nas formas poética e ortográfica.

Sextilha septissílaba extraída do folheto “A Peleja de Chico Traíra e João Preá” :

Entre os dois grandes poetas
Que improvisam sem engano,
O desafio se deu
Num clima interiorano,
Em um sítio situado
No sertão paraibano.

 

Sílabas Ortográficas:

En-tre – os – dois – gran-des – po-e-tas
1     2      3       4        5      6        7   8   9

Que – im-pro-vi-sam – sem – en-ga-no,
1      2     3       4     5       6        7   8   9

O – de-sa-fi-o – se – deu
1     2   3   4   5    6     7

Num – cli-ma – in-te-ri-o-ra-no,
1        2      3      4    5  6  7  8   9

Em – um – sí-ti-o – si-tu-a-do
1      2      3  4  5   6  7  8  10

No – ser-tão – pa-ra-i-ba-no.
1        2     3      4   5  6  7   8

 

Sílabas Poéticas:

En / tre os / dois / gran / des / po /etas
1         2         3          4         5      6     7

Que im / pro / vi / sam / sem / en / gano,
1         2       3       4         5        6      7

O / de / sa / fi / o / se / deu
1     2     3     4    5     6    7

Num / cli / ma in / te / ri /o / rano,
1        2        3           4     5   6    7

Em / um / sí / tio / si / tu / ado
1      2      3        4     5     6      7

No / ser / tão / pa / ra / i / bano.
1      2         3      4       5    6    7

Na estrofe acima, o que diferencia a contagem de sílabas poéticas são as elisões e as sílabas rítmicas finais dos versos.

1 – Elisão

Uma elisão é uma supressão oral ou gráfica da vogal final de uma palavra, quando a seguinte começa por vogal, ou por h seguido de vogal, como por exemplo: deste = de este; outrora = outra hora. No caso das sílabas poéticas, a elisão de que falamos é a supressão oral, mantendo-se a escrita normal das palavras.

As elisões são usadas quando uma palavra termina com uma vogal em sílaba atônica e a palavra seguinte se inicia com uma vogal, preferencialmente atônica também.

* Veja que no exemplo acima a palavra “paraibano” não foi alvo de supressão rítmica interna entre o a e i (2ª e 3ª sílabas), devido à pronúncia costumeira da palavra, o que deve ser sempre levado em conta. Na mesma estrofe, o mesmo se aplica às palavras “interiorano”, “situado” e “desafio”.

2 – Rima e sílaba final do verso

Em métrica de poesia, a rima é equivalente a uma sílaba poética.

Isso porque a rima tem como componente inicial a sílaba tônica da palavra. Se vierem outras sílabas após a sílaba tônica em uma mesma palavra ao final de um verso, para efeitos de métrica, serão desconsideradas como sílabas e sim como componentes da rima. Isto serve tanto para as palavras paroxítonas (ex.: verdade, qualidade) quanto para as proparoxítonas (ex.: plástico, fantástico).

Essa regra vale para as rimas e também para o as sílabas finais dos versos cuja rima não é obrigatória. Ex.:

Entre os dois grandes poetas        (livre)
Que improvisam sem engano,      (rima obrigatória)
O desafio se deu                            (livre)
Num clima interiorano,                (rima obrigatória)
Em um sítio situado                     (livre)
No sertão paraibano.                    (rima obrigatória)

 

3 – Proparoxítonas

Em que casos a métrica do Cordel pode se diferenciar da métrica do Repente no que diz respeito às palavras proparoxítonas?

?

Eu, por opção de experiência pessoal, adoto métrica diferenciada para cantar repente e para escrever cordel no que diz respeito às palavras proparoxítonas no meio dos versos, ou seja, quando a proparoxítona não está na sílaba final de um verso.

De algumas décadas para cá, os principais repentistas expoentes disseminaram o uso da “supressão ritmo-silábica” nas palavras proparoxítonas quando estas estão no meio do verso e não na rima. As duas sílabas átonas após a tônica são consideradas uma só sílaba, podendo ainda ser alvo de uma elisão. Isto confere uma estética sonora interessante e facilita o improviso ao repentista. Eu, como já disse, não costumo usar a mesma regra nos cordéis que escrevo e nem o tenho visto com frequência por bons autores.

Como instrutor de inúmeras palestras, aulas e oficinas de Literatura de Cordel, onde ensino a regras básicas do gênero (e às vezes alguns dos segredos da criação em verso), ao ouvir os participantes lendo estrofes percebi sistematicamente certa dificuldade generalizada na articulação verbal rítmica das palavras proparoxítonas. Ou seja, os alunos estavam assimilando a métrica básica, mas não a supressão rítmica das proparoxítonas.

Constatado isso, julgo melhor tornar a leitura mais agradável, mantendo a coesão rítmica compreensível aos meus leitores. Uso as sílabas atônicas das proparoxítonas como sílabas poéticas, mas também, vez por outra opto por manter no Cordel a métrica tal qual como uso no Repente, conforme o tema e contexto.

 

Exemplo de métrica no Repente com palavras proparoxítonas

Estrofe da faixa “Entre Espinhos e Flores” do CD Cantando as Coisas da Vida (Chico de Assis e João Santana). OUÇA NESTE LINK

Estilo: Mote decassílabo: “Entre espinhos e flores levo a vida / Sem ter medo da vida me levar”

(mesma métrica do estilo conhecido como Martelo Agalopado – décimas decassílabas),

 

Meu oráculo maior se coaduna
Com o templo dos cultos ecumênicos,
Onde os gestos são mais que quadros cênicos
E as palavras não mofam na tribuna,
Minha fé é o vínculo entre a fortuna
E os degraus mais hostis de se galgar,
Meu pastor uma bússola a me guiar,
Minha prece uma voz a ser ouvida
Entre espinhos e flores levo a vida
Sem ter medo da vida me levar!

 

Meu / o / rá / culo / mai / or / se / co / a /duna
1        2    3      4            5       6      7     8    9    10

Com / o / tem/ plo / dos / cul / tos / e / cu / mênicos,
1      2      3      4        5        6       7     8    9     10

On / de os / ges / tos / são / mais / que / qua / dros / cênicos
1          2        3       4       5          6         7         8         9      10

E as / pa / la / vras / não / mo / fam / na / tri / buna,
1      2     3       4        5        6         7       8      9      10

Min / ha / fé / é / o / vín / culo em / tre a / for / tuna
1      2      3    4    5     6              7            8         9      10

E os / de / graus / mais / hos / tis / de / se / gal / gar,
1      2         3           4         5       6      7      8       9     10

Meu / pas / tor / u /ma / bús / sola a / me / gui / ar
1       2       3      4     5       6          7           8       9      10

Mi / nha / pre / ce u / ma / voz / a /ser / ou / vida
1      2        3        4        5       6       7     8      9      10

Em / tre es / pi / nhos / e / flo / res / le / vo a / vida
1          2                4        5      6      7         8        9        10

Sem / ter / me / do / da / vi / da / me / le / var!
1        2       3         4      5       6      7       8       9      10

 Concluindo, convido você a ler o folheto de cordel eletrônico A Origem do Repente, escrito em sextilhas de versos septissílabos.

Se você gostou, Se expresse! Curta, comente e compartilhe! Terei prazer em ler e responder!

Um abraço,

João Santana

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