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Tive a honra, e o desafio, de escrever um posfácio para um excelente livro que versa sobre o Sertão Nordestino em três contos que se passam em épocas distintas: Ensaios e Digressões sobre Alforria e Desapegos, de Tito Liberato. É uma obra ficcional envolvente, calcada na realidade sociocultural sertaneja do Nordeste, região de onde vêm a Cantoria e o Cordel. Caso você tenha interesse em comprar o livro, basta clicar na imagem acima.

 

Aí vai o posfácio (ou, como diria Tito, posfácil). Boa leitura!


O Sertão de Viriato

 

Pernambuco, 1930. O Sertão é místico, é mítico, causticante e encantador, rude e acolhedor. Seres misteriosos e fenômenos sobrenaturais se desprendem do imaginário coletivo e ganham vida em seu amplo cenário. Ali, tanto a Natureza é imponente como a composição socioeconômica vigente é dura e desafiadora. O Sol desvela sua extensa aquarela, do ressequido ocre ao verdejante esplendor do inverno. O fio de bigode, palavra empenhada, é compromisso irrevogável e intransferível e o desaforo motivo justo para um desterro regado a sangue. A fé cristã preserva a rigidez de princípios conservadores e a ternura da hospitalidade e da solidariedade, enquanto o coronelismo e a cangaceiragem convivem a ferro e fogo. As grandes secas, impetuosas, e as desigualdades e conturbações sociais exigem do homem a disciplina de regrar, poupar e proteger os frutos dos esforços rurícolas como uma atitude indispensável.

Naquele ambiente, qualquer comportamento impulsivo e prodigalizador é capaz de lançar o indivíduo a uma desaprazível aventura cujas possibilidades de êxito e júbilo são ínfimas e, quando factíveis, precedidas por agruras extenuantes. Administrar com previdência as posses e resultados do labor no campo é uma lei. Negligências quanto à sua aplicação culminam em dissabores, suportáveis apenas para os que fazem jus à máxima de cunha euclidiana, “o sertanejo é um forte”. Neste caso, ser forte é “comer o pão que o diabo amassou” e sobreviver às consequentes intoxicações e infecções cármicas para, após longa tênebra, merecer o raiar da santa misericórdia.

Neste conto, o amor paternal e o respeito filial se entrelaçam numa envolvente releitura da parábola do filho pródigo, ambientada no sertão nordestino dos beatos, cangaceiros, cegos cantadores, jagunços, coronéis e lobisomens. A alforria de Viriato é o desfecho de uma sina presa à conquista de um símbolo, o perdão. Da libertação nasce outra sorte, a do andarilho despreocupado quanto a onde ir e até quando cantar, confiante no dia do juízo.

 

João Santana

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