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Em 1960, um dos maiores nomes da Literatura brasileira, o pernambucano Manuel Bandeira, publicou em seu livro Estrela da Tarde um poema exaltando humildemente os poetas repentistas, após ter assistido alguns dos grandes nomes do Repente da época, dentre eles os irmãos Dimas e Otacílio Batista.

Eis a declaração:

Anteontem, minha gente,
Fui juiz numa função
De violeiros do Nordeste
Cantando em competição,
Vi cantar Dimas Batista,
Otacílio, seu irmão,
Ouvi um tal de Ferreira,
Ouvi um tal de João.
Um a quem faltava um braço
Tocava cuma só mão;
Mas como ele mesmo disse,
Cantando com perfeição,
Para cantar afinado,
Para cantar com paixão,
A força não está no braço,
Ela está no coração.
Ou puxando uma sextilha,
Ou uma oitava em quadrão,
Quer a rima fosse em inha
Quer a rima fosse em ão,
Caíam rimas do céu,
Saltavam rimas do chão!
Tudo muito bem medido
No galope do Sertão.
A Eneida estava boba,
O Cavalcanti bobão,
O Lúcio, o Renato Almeida,
Enfim toda comissão.
Saí dali convencido
Que não sou poeta não;
Que poeta é quem inventa
Em boa improvisação
Como faz Dimas Batista
E Otacílio seu irmão;
Como faz qualquer violeiro,
Bom cantador do Sertão,
A todos os quais humilde
Mando minha saudação.

Admiro a humildade desse grande literato e, sobretudo, a coragem de exaltar poetas não acadêmicos em plena década de 60! Vê-se que ele é como o Maestro Heitor Villa-Lobos, que foi um dos maiores colecionadores de folhetos de Literatura de Cordel de que se tem notícia.

Um trecho do poema me chama à atenção: “Como faz qualquer violeiro / Bom cantador do Sertão”. Concordo parcialmente porque é verdade, qualquer bom cantador faz como Dimas e Otacílio (ao menos se aproxima), mas não qualquer violeiro.

A generalização aplicada à figura do cantador repentista incorreria em desconsiderar-se o talento individual de cada ser humano que compõe e representa esse ente da cultura brasileira, o Repentista Violeiro. Claro que não foi essa a intenção, de generalização, assim como não é o ponto de destaque do louvável poema, contudo, sinto-me honrosamente incluído entre os cumprimentados, portanto concluo: – Mestre Manuel Bandeira, muito obrigado!

* Aproveitando o tema, ouça o galope à beira-mar, O Bom Repentista, que foi alvo do meu segundo CD com Chico de Assis e escolhido pelo programa Refrão, da TV Justiça.

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Aproveito e convido você a ler e-cordel A Origem do Repente!

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Um abraço!

João Santana

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